quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sobre o tempo - parte 2

O passado passou e agora não é mais que uma lembrança. O futuro ainda não chegou e, na verdade, nunca vai chegar (pois quando chegar não será mais futuro, mas presente).

Não se pode viver a não ser no presente.

Viver no passado ou no futuro, portanto, é mais que um engano: é uma impossibilidade. Quem pode amar no passado ou no futuro? Quem pode se divertir no passado ou no futuro? Quem pode trabalhar no passado ou no futuro? Quem pode agir no passado ou no futuro?

Mas viver sempre no presente não significa viver sem se importar com o passado ou com o futuro. Isso seria viver no instante, segundo Sponville.

Viver no presente? Tem de ser, já que só isso nos é dado. Viver no instante? De jeito nenhum! Seria renunciar à memória, à imaginação, à vontade - ao espírito e a si. Como pensar sem nos lembrar das nossas idéias? Amar, sem nos lembrar de quem amamos? Agir, sem nos lembrar dos nossos desejos, dos nossos projetos, dos nossos sonhos? Se você estuda ou paga um plano de aposentadoria, é para preparar seu futuro, e você está certo. Mas é no presente que você estuda ou paga, não no futuro! Se você cumpre suas promessas, é porque, antes de mais nada, você se lembra delas, e tem de lembrar. Mas é no presente que você as cumpre, não no passado! 

Viver no presente não é amputar sua memória ou sua vontade, já que elas fazem parte dele. Não é viver no instante, já que é durar, já que é persistir, já que é crescer ou envelhecer.” (André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes, p. 120)

O instante acaba, ali mesmo. O presente continua. Por isso não se pode (ou não se deve) simplesmente não se importar com o futuro, porque o futuro nada mais é que a continuação do presente.

Aliás, o futuro é o grande anseio de nosso coração, não há como escapar disso. É no futuro que estão nossos sonhos, nossos projetos, nossa esperança. Por outro lado, o futuro é sempre nebuloso, porque nunca sabemos o que pode nos acontecer. O futuro sempre muda suas feições na medida em que a vida segue. Mas que vida é essa que se vive à espera de um futuro que nunca chega, que se vive na expectativa que nunca se concretiza, que se vive num futuro que nunca se torna presente?

"Nós somos prisioneiros do futuro e de nossos sonhos: de tanto esperar amanhãs que cantem, perdemos o único caminho real, que é o de hoje. No entanto é preciso viver e lutar: partir para o assalto do céu, mesmo que esse céu não exista.(André Comte-Sponville em O Amor a solidão, citado na contracapa de Apresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes)




Não há outra saída, é preciso viver e lutar. Hoje mesmo, não amanhã. Talvez haja algo maravilhoso a ser conquistado, "tomado de assalto" mesmo; talvez nem haja. Mas no final das contas isso é o que menos importa.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre o tempo - parte 1

Há alguns assuntos bem complicados na reflexão filosófica. Um deles é o tempo.

A dificuldade começa logo em definir o que é o tempo. E embora essa seja uma questão um tanto chata, que provoca aquelas discussões bem abstratas, trata-se de uma questão necessária, simplesmente porque precisamos saber sobre o que estamos falando. E pretendo demonstrar, ao final, como a compreensão acerca do tempo pode se tornar muito relevante no modo como se vê e como se vive a vida.

O que é o tempo, afinal? (Prepare-se que a viagem vai bem longe).

O bispo Agostinho de Hipona disse que o tempo é daquelas coisas que, se ninguém perguntar, a gente sabe o que é; mas se alguém perguntar e queremos explicar, aí já não sabemos mais. E é isso mesmo. Tenho a nítida impressão de que não é possível formular uma definição satisfatória acerca do tempo, mesmo porque não é possível refletir sobre o tempo sem estar submetido a ele. Nossas lembranças do passado, nossas expectativas do futuro, nossas percepções do presente, isso é o que somos. E tudo o que há, para nós, está dentro dessas categorias: passado, presente, futuro. Nada há, para nós, fora do tempo. 

Como vamos saber o que é o tempo, se nem temos como imaginar como seria viver estando fora do tempo? Como vamos conhecer o tempo se ele é condição e pressuposto para o próprio conhecimento? Além disso, toda definição é uma delimitação, e o tempo sempre escapa. Não dá para observá-lo enquanto objeto, porque ele nunca está ali. Está sempre em movimento, e nosso espírito nele (ou ele em nosso espírito, sabe-se lá).

Mas não custar tentar pelo menos traçar um caminho. Depois vemos aonde chegamos e se podemos continuar – ou voltar atrás.

Passado, presente e futuro, numa sucessão de acontecimentos: isso é o que nos parece ser o tempo.

Mas existe mesmo um passado que não seja apenas uma lembrança? Tente lembrar: o que você estava fazendo duas horas atrás? O que você fez ontem o dia todo? Como foi a última viagem que você fez? Como foi o seu primeiro beijo? Essas recordações que surgem na sua mente não estão no passado, estão no presente, estão aí na sua cabeça, agora mesmo. O passado não existe mais. Passou. E quando o passado existiu, não era, naquele momento, passado: era o presente. Na verdade o passado nunca existiu, foi apenas um presente que passou e se tornou uma lembrança – ainda presente.

Pense se digo algum absurdo.

E o futuro? O que é o futuro? Existe mesmo um futuro que não seja apenas uma expectativa? Pense aí: o que você vai fazer daqui a duas horas? O que você vai fazer amanhã pela manhã? Como vai ser a sua próxima viagem? Como vai ser o seu próximo beijo? Ninguém sabe, porque o futuro ainda não chegou. Claro que o que você planejou para daqui a duas horas muito provavelmente vai se concretizar. Mas vai mesmo? É plenamente possível que não. Não é apenas uma expectativa? E se o telefone tocar com alguma demanda urgente? E se faltar energia? E se o carro quebrar? A propósito, você vai mesmo dar um próximo beijo? Vai mesmo viajar? Essas expectativas que surgem na sua mente não estão no futuro, estão no presente, estão aí na sua cabeça, agora mesmo. O futuro não existe ainda. E quando o futuro chegar não será, naquele momento, o futuro: será o presente. Na verdade, o futuro nunca existirá, será apenas um presente que chegou.

Pergunto de novo: digo algum absurdo?

Depois de escrever um longo capítulo sobre o tempo, André Comte-Sponville diz algo que eu mesmo gostaria de dizer depois de escrever esta postagem:

Como poderíamos sair do presente, se ele é tudo? Por que querer sair, se o próprio espírito pertence a ele? Veja este capítulo que acaba: ele ficou quase todo para trás, com um passado que já se apaga. Mas você não o leu e nunca o lerá a não ser no presente, como eu o escrevi no presente. 

O mesmo vale para a sua vida, e isso é muito mais importante. Ela não está escondida no futuro, como um destino ou uma fera ameaçadores. Nem oculta no céu, como um paraíso ou uma promessa. Nem encerrada no seu passado, leitor, como num porão ou numa prisão. Ela está aqui e agora: ela é o que você vive e faz. No cerne do ser. No cerne do presente. No cerne de tudo - no grande vento do real e do viver. Nada está escrito. Nada está prometido.” (André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes, p. 122-123)

Eu sei que essa reflexão acaba sendo bem piegas, alguém já deve ter lido alguma coisa parecida num desses livros porcarias de auto-ajuda ou nesses sites de mensagens na internet. Mas fazer o quê? É isso mesmo, e a vida é mesmo cheia de clichês. Às vezes um clichê que antes não significava coisa alguma se torna uma realidade substantiva, depende do presente de cada um.

O maior obstáculo à vida é a espera”, disse Sêneca. E muitas vezes as recordações do passado aprisionam mesmo nossa mente e nos matam aos poucos. Mas não há passado nem futuro. Demora-se muito para perceber que isso é verdade, mas quando se percebe alguma coisa muda no modo de encarar a vida.

Então é isso? Aproveitar o momento sem se preocupar com o futuro? Simplesmente esquecer o que passou? Não é isso, exatamente. Viver no presente, que é inevitável, é bem diferente de viver no instante, que pode ser irresponsável. Mas trataremos dessas outras perguntas na próxima postagem.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Em oculto, sob máscaras

Outro dia reencontrei pessoas queridas que conheci há mais de vinte anos, quando éramos todos ainda crianças, aquele encontro clássico com o pessoal dos tempos de escola. Esses encontros sempre fazem reviver uma época em que a vida era leve e simples, tão leve e tão simples que apenas a lembrança daqueles dias é doce o suficiente para fazer sentir aquela alegria triste que vem da saudade.

"Vinte anos...", eu fiquei pensando. De vez em quando dá um estalo e a gente percebe o tempo. Vinte anos é um tempo considerável na vida de uma pessoa. Quanto a mim e aos meus colegas de escola, todos agora são adultos, com responsabilidades, conduzem procedimentos cirúrgicos, conduzem demandas jurídicas, conduzem pesquisas científicas avançadas, lecionam em universidades, administram setores das forças armadas, pilotam jatos, pilotam helicópteros, administram milhões de reais em instituições financeiras, projetam e constroem edificações, programam computadores, administram a própria empresa, cuidam do bem-estar físico e mental de outras pessoas, cuidam de casa, fazem tantas outras coisas importantes, muitos com filhos para cuidar e educar, alguns já calvos, outros mais gordos (meu caso), alguns cabelos brancos, algumas marcas de expressão no rosto. São adultos, como disse, gente grande, responsável.

Mas olhando para cada um eu juro que ainda vejo nitidamente meus colegas de sala lá da quinta ou sexta série. Tenho certeza de que passaram por muitas experiências nesses mais de vinte anos, aprenderam bastante coisa, viveram bastante coisa, mas no fundo, no fundo, são apenas meus colegas de sala. Aliás, olhando bem perto no espelho muitas vezes também me vejo assim; no conteúdo essencial, a mesma criança de vinte e tantos anos atrás.

Apenas uns poucos anos a mais – não demorará – e poderei dizer como  André Comte-Sponville :

A maturidade não existe, ou só existe para os outros. Será que esse homem pouco mais velho que eu, que cumprimento no elevador, sabe que quem lhe fala é um menininho, um pouco intimidado, um pouco envergonhado de ter de falar com um adulto como se ele mesmo fosse um, e surpreso, sim, quase envaidecido, apesar dos seus 50 anos, de que o outro pareça acreditar nisso? Certamente tão pouco quanto eu conheço esse menininho que meu vizinho continuou sendo para si mesmo, sem que ninguém soubesse e como que absurdamente escondido sob os traços de um quase sexagenário...

Não existe gente grande. Existem apenas crianças que fazem de conta que cresceram, ou que de fato cresceram sem no entanto acreditar plenamente nisso, sem conseguir apagar a criança que foram, que continuam sendo, apesar de tantas mudanças, que carregam consigo como a um segredo, como um mistério, ou que as carrega...

Ser adulto é ser um coadjuvante. Ao menos é assim que eu me sinto, sabendo que não sou o único, embora não tenha a certeza de que estejamos todos incluídos nesse caso. Deve-se dizer que, nesse papel, alguns são prova de um talento singular, feito de seriedade e suficiência, que vai até o ponto de enganar a eles mesmos. Quem sabe, contudo, isso não passe de uma aparência que eu também às vezes passo para outras pessoas... Quem sabe? O rosto é uma máscara, ainda mais enganadora, como diria Pascal, porque nem sempre o é.” (André Comte-Sponville em A vida humana, Ed. Martins Fontes, p. 83)

E esta é uma certeza que nos acompanha, em oculto, sob máscaras: morremos crianças. Morreremos muito, muito crianças.

---

* Essa postagem é dedicada, com todo o afeto do mundo, a Kárdia Lacerda, Karla Rebouças, Álvaro Studart, Eliseu Becco, Ládia Chaves, Marcelo Girão, Daniel Holanda, José Nilton Oliveira, João Odilo, Eduardo Furlani, Marcelo Machado, Pedro Uchoa, Lia Carvalho, Fernando Veras, Aline Carvalho, Vitória Régia, Delano Benevides, Ciro Pompeu, Fernando Meton, Fábio Távora, Ana Cecília Muniz, João Leitão, William Segundo, Cinira Leandro, André Pinheiro, Kelma Leite, Roberto Cardoso, Gustavo Macedo, Erli Viana, Iane Pontes, Duílio Rocha, Flávio Bonfim, Rodrigo Rodrigues, Kamilla Xavier, Luana Bravo, Anderson Eufrásio, Alexandre Bastos, Dulce Bizarria, Breno Falcão, Jefferson Lopes, Eduardo Barros, André Pinheiro, Gustavo Colares, Gustavo Abreu, Luiz Alberto, Daniel Moura, Daniela Bezerra, Ticiana Macedo, Mary Anne Sampaio, Helder Bezerra, Dennison Pinheiro, Murilo Massari, César Vieira, Sávio Fragoso, Wallace, Ivo Menezes, Arquimedes Santana, Ingrid Nair, Dario Castro, José Wilker, Andrea Carvalho, Samara Nunes de Liz, Adriano Sobreira, Jeanne Vidal, Leonardo Xavier, Euler Antunes, Rafael Marinho, Lígia Rêgo, Felipe Salvatierra, Tobias Souza e outros de cujos nomes não pude me lembrar agora - e a quem peço perdão pela omissão -, mas que fizeram e fazem parte da minha infância, desta minha infância que dura até hoje.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Contos do subsolo: as dores do mundo

por mim

Uma noite dessas, cansado e sem esperança, eu estava deitado em minha cama, no escuro, ouvindo alguma canção triste e tentando fechar os olhos para chegar logo o dia seguinte. Era uma daquelas noites que parecem que não vão acabar nunca. Então, de repente, um vento forte entrou pela janela e fez-se um clarão no meu quarto. Tomei um susto, dei um pulo da cama. Fiquei meio cego pela intensade da luz que se fez. Esfreguei os olhos e, com alguma dificuldade, consegui ver um vulto que apareceu, um tanto embaçado, um tanto sombrio.



- Tenho uma proposta para você, disse o vulto com uma voz suave de mulher.

- Quem é você?

- Sou Maya.

Eu tremia, sem saber o que diabo era aquilo.

- Maya?!

- Sim.

- E qual é a sua proposta?, perguntei.

- Olhe ali pela janela, disse o vulto. Veja: ali estão todas as dores e todos os males do mundo.

Eu me aproximei da janela e olhei para fora. Mesmo sem enxergar direito eu olhei e vi algo que não posso descrever. Vi claramente todo tipo de sofrimento que se possa imaginar; miséria, fome, doenças de várias espécies, injustiças de várias espécies, solidão, tortura, morte, abusos sexuais, medo, ódio, traição, desespero, prisão, opressão, guerras, guerrilhas, sonhos frustrados, separação, abandono, do mundo inteiro. Senti um peso tremendo no peito, uma agonia sem tamanho. Caí no choro.

Olhei de volta para o vulto, sem entender nada.

- A minha proposta é a seguinte: se você desejar, posso repartir todos os males e todas as dores do mundo igualitariamente entre os homens e mulheres que vivem sob o véu dessa existência. Nenhuma pessoa sofrerá nem mais nem menos que a outra. Todos sofrerão exatamente na mesma medida, inclusive você. Quer isto ou permanecer com a sua quota-parte? Você escolhe.

Sentado no chão, eu chorava de um jeito que nunca chorei antes, como quem quer desaparecer para sempre. Como eu poderia escolher uma coisa dessas?

- E então, o que vai ser?, ela insistiu. Não tenho muito tempo.

- Quero a minha parte mesmo, respondi envergonhado.

- Pois assim seja.

Fez-se uma nova ventania e outro clarão. O vulto sumiu. Olhei para a janela e percebi que amanhecia.

Sentei-me na cama, olhei ao redor, estava tudo como antes. Os primeiros raios de sol entravam pela janela como que anunciando uma sobrevida, mais um dia. Lembrei-me das coisas que tinha para fazer e já não sentia tanto cansaço. Talvez tivesse alguma esperança.

FIM


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Coisas de Arthur...


"O jovem acredita que o mundo que ele ainda não viu está aí para ser aproveitado e é a sede de uma felicidade positiva, estranha apenas aos que não têm habilidade para conquistá-la. Nessa sua crença, é fortalecido por romances, poesias e também pela hipocrisia que, sempre e em toda parte, move o mundo com a aparência exterior. 

Em geral, no entanto, essa perseguição à felicidade não conduz a uma caça, inexistente, mas a uma desgraça bastante real e positiva. Esta se manifesta como dor, sofrimento, doença, perda, frustração, preocupação, pobreza, desonra e mil outros males. A desilusão chega tarde demais.(Arthur SchopenhauerAforismos para a sabedoria de vida, Martins Fontes, 2006, p. 143)



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Tirinhas filosóficas (ou quase isso)












Fonte: Malvados

.

Sobre a morte - parte final

A coisa em que o homem livre menos pensa é na morte”, escreveu Spinoza, “e sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida”. Epicuro ensinava que a gente não deveria se preocupar com a morte, pois “enquanto somos, a morte ainda não chegou, e quando ela chega, não somos mais”.

Parecem reflexões incompatíveis com o que eu escrevi aqui nas postagens anteriores. Afinal, deve-se ou não pensar na morte? Ora, fico pensando como Spinoza e Epicuro chegaram a essas conclusões sem antes terem pensado bastante na morte (e na beleza frágil da vida). Seria possível? A conquista dessa liberdade de viver sem se preocupar muito com a morte é, na verdade, um segundo estágio, que só pode ser alcançado quando a idéia da morte já foi assimilada e a fragilidade da vida compreendida, depois de alguma reflexão. Apenas aí a meditação sábia pode se voltar para a vida. Apenas aí a vida pode se tornar um prazer calmo e despreocupado.

É necessário ter pensado muito na morte para escrever isto:

"Qualquer que seja a duração de sua vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dá. Há quem viveu muito e não viveu. Medite sobre isso enquanto o pode fazer, pois depende de você, e não do número de anos, ter vivido o bastante. Imaginava então nunca chegar ao ponto para o qual se dirigia? Haverá caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros pode consolar, pense que o mundo inteiro segue caminho idêntico.

Vamos agir e prolongar os trabalhos da vida tanto quanto possível, e que a morte me encontre plantando meus repolhos, mas despreocupado com ela, e mais ainda com o meu inacabado jardim." (Michel de Montaigne, em Ensaios, vol. I, Nova Cultural, p. 99 e 103)

Não há consolo para a morte; ela é triste. Mas a vida não precisa ser triste, não enquanto houver algum jardim para se cuidar. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Oito minutos

por mim mesmo


Havia um país – tão remoto quanto autoritário – cuja lei proibia e punia severamente pessoas casadas que praticassem gestos de ternura e de amor às vistas dos outros e onde flagrar pessoas casadas dormindo juntas ou apenas se beijando era algo muitíssimo mais grave e mais vergonhoso que serem apanhadas fazendo isso com amantes extraconjugais. A pena era grave: dez chibatadas e multa de vinte salários mínimos para cada cônjuge. No caso de reincidência, vinte chibatadas e prisão perpétua com trabalhos forçados (sem direito a contato entre os cônjuges, nem mesmo por escrito).

Havia fiscais por toda parte, a toda hora.

Neste lugar, pessoas casadas marcavam encontros às escondidas, apenas para uns beijinhos furtivos e abraços clandestinos. Eram sempre encontros muitos raros e rápidos, com o coração palpitando pelo receio de serem vistos. Secretamente, maridos compravam presentes para as esposas, e esposas para os maridos, mesmo coisinhas pequenas, que tinham de ser entregues num canto escondido que ninguém visse, dentro de um carro estacionado em lugar ermo ou na escadaria escura de um prédio. Qualquer gesto de afeto em público era um risco, de modo que era preciso ter muito cuidado, especialmente para cônjuges que trabalhavam juntos e conviviam diariamente.


As crônicas desse infeliz lugar registram a história de um casal distinto, ambos professores universitários, respeitados na sociedade, e que eram casados havia doze anos. Moravam separados, e seus encontros eram poucos e furtivos, nos moldes acima descritos. Certa feita – estavam duas semanas sem se ver –, eles marcaram um encontro no cinema às três horas da tarde, num dia de terça-feira. Era a melhor sessão, pois o cinema sempre estava vazio. Naquela manhã, ela acordou pensando nele, e ele pensando nela. Arrumaram-se um para o outro. Passaram a manhã trocando mensagens de celular, em códigos, mensagens que eram imediatamente excluídas, por questão de segurança. Almoçaram cada um no seu canto, um pensando no outro, contando os minutos para o encontro. Quando chegou a hora, foram ao cinema, mas, obviamente, foram separados. Cada um comprou seu ingresso e entraram. A sala de cinema estava quase deserta, só havia mais duas ou três pessoas. Ela entrou primeiro e sentou-se bem no cantinho, no lado oposto ao da entrada. Não havia ninguém por perto. Ele foi ao banheiro para esperar um pouco até as luzes da sala se apagarem. Quando começaram os trailers, ele entrou e foi sorrateiramente sentar-se ao lado dela.

– Você está tão linda, ele disse baixinho ao pé do ouvido dela.

Ela se derreteu toda, sorrindo. E disse com carinho:

– Que saudade de você, meu amor...
           
Eles nem viram os trailers, porque começaram um beijo que durou oito minutos. Sem parar. Intensamente. Pele com pele, toques delicados, cabelos, cheiros, lábios, línguas, saliva, carinho, pulso, poesia... Oito minutos. Quando acabou o beijo, o filme já tinha começado e eles nem perceberam. Ficaram ali, abraçadinhos, com aquela sensação de que nada mais era relevante e de que tudo estava muito bem, ao menos enquanto estivessem juntos.

Ocorre que, no meio do filme, eles notaram um homem se aproximando pelo corredor lateral, por trás, com passo lento e cadenciado. Os dois estremeceram. O homem parou ao lado deles, abaixou-se lentamente e sussurrou com uma voz grave e calma:

– Com licença. Vocês são casados?

Largaram a mão um do outro.

– Claro que não, imagina, ele disse, tentando disfarçar a tensão. Ela é só minha namorada.

– Posso ver a identidade de vocês?

Eles entregaram as identidades. O homem chamou a central pelo rádio e informou o nome dos dois. E logo veio a confirmação de que eram casados.

– Me acompanhem, por gentileza, disse o homem em tom solene e delicado.

– Mas a gente não estava fazendo nada, moço...

– ME ACOMPANHEM, POR GENTILEZA!, repetiu o homem pausadamente, desta vez aumentando um pouco a voz e com alguma rispidez.

Os dois foram algemados e enfiados cada um em uma viatura da polícia. Separados, ela chorava e ele se compungia profundamente com a visão dela chorando. Foram levados à corte especial e julgados sumariamente naquela mesma tarde. Descobriu-se que eram reincidentes – aliás, carregavam nas costas as cicatrizes das dez chibatadas de quatro anos atrás. O defensor público pediu clemência ao juiz, apelou à sua compaixão, invocou o direito natural, alegou insanidade temporária, mas de nada adiantou.

– Fosse apenas um afago discreto ou um ósculo mínimo, disse o magistrado, poderia até cogitar um indulto aos consortes. Talvez uma pena alternativa. Mas o policial testemunhou que foram oito minutos de beijo! Oito minutos! Intolerável... Dura lex, sed lex, sinto muito, e bateu o martelo.

Foram condenados à prisão perpétua com trabalhos forçados, como mandava a lei, sem direito a manter contato um com o outro, para sempre. E o juiz, com a consciência íntegra, saiu mais cedo do fórum dizendo que tinha uma reunião importante, mas na verdade foi fazer uma surpresa clandestina para sua esposa, que ele não via desde a semana anterior e que estava em casa com saudade dele. Levou flores e tudo.

Quanto ao nosso casal de condenados, posso dizer que jamais se arrependeram de seus crimes. Passaram o resto da vida longe um do outro, sem contato, infelizmente. E todas as noites os dois adormeciam com a doce lembrança daqueles oito minutos.

                        FIM

Sobre a morte - parte 3

Como disse antes, até uma certa idade a maioria das pessoas só reflete seriamente sobre a morte quando alguém querido morre ou quando essa pessoa querida (ou ela própria) está gravemente doente, na iminência de morrer. E mesmo depois da morte de alguém querido, como a vida sempre segue seu rumo, o tempo passa e o assunto "morte" vai caindo no esquecimento de novo. 

Mas por que seria diferente?, alguém pergunta. Por que pensar na morte? Por que pensar na morte se ninguém morreu ou está para morrer? Por que pensar na morte se ela não está por perto? Por que pensar na morte se há tanta vida a ser vivida? 

São perguntas interessantes. Na primeira parte da série sobre a morte há um esboço de resposta: a nossa concepção do que é a morte acaba exercendo uma influencia muito forte sobre a nossa concepção do que é a vida e de como se deve viver.

Para o indivíduo que morre, a morte é o fim de tudo? Ou há algum tipo de consciência que subsiste depois da morte do corpo? Há outras vidas a serem vividas, em outras dimensões? Há alguma prestação de contas no além? Ou há apenas um nada, um sono sem sonho e sem fim? Qualquer resposta não passa de palpite, seja da parte dos ateístas, seja da parte dos místicos e religiosos. Ninguém sabe.

Seja como for, acho que vive melhor quem aprende a lidar com a idéia da morte, quem aprende a morrer. Não se trata de desistir da vida e desejar a morte. Não se trata de se tornar uma pessoa mórbida, que só vive a pensar na morte o dia inteiro, esperando a morte chegar. Nada disso. Trata-se de se acostumar com a idéia de que vamos morrer, trata-se da aprender a aceitar isso com calma, sem medo ou relutância.

Filosofar é aprender a morrer somente porque é aprender a viver e porque a morte – a idéia da morte, a inelutabilidade da morte – faz parte desse aprendizado. Mas é a vida que vale, e somente ela. Os verdadeiros filósofos aprendem a amá-la como ela é; por que se apavorariam com o fato de ela ser mortal?

Nada ou o renascimento? Outra vida ou mais nenhuma vida? Cabe a cada um escolher entre esses dois caminhos, e pode inclusive – como os céticos, como Montaigne talvez – se recusar a escolher: deixar a questão em aberto, como de fato é, e habitar essa abertura que é viver. Mas ainda é uma maneira de pensar na morte, e temos de pensar nela mesmo. Pois como não pensaríamos no que é – para todo pensamento, para toda vida – o horizonte último?(André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, p. 50-51)

Pensar sobre a morte sempre deixa a gente meio melancólico. Mas isso de modo algum tira a vontade de viver ou beleza que a vida pode ter. Ao contrário, pensar sobre a morte pode nos proporcionar a algo muito importante (e valioso) em relação à vida mesma: a compreensão e a aceitação de que é preciso amar a vida como ela é, e isto inclui o fato de que ela é frágil e passageira, pois a morte faz parte dela. Em outras palavras, é preciso pensar na morte e aceitar a morte para aceitar a vida.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quando o mal nos cerca...

Os que visitam este Jardim desde o começo sabem que sempre que chega o final de um semestre eu penso em desistir de escrever coisas aqui. Não é charme, mas é, digamos, uma questão de tradição.

Nesse período sempre há muitas coisas pendentes para fazer (provas para elaborar, provas para corrigir, aulas, monografias para avaliar, mais aulas, demandas domésticas) e não sobra tempo para organizar essas besteiras que eu penso e colocar aqui alguma reflexão decente. Some-se a isso a percepção cada vez mais nítida de um mundo tão potencialmente mau e temos a receita para um espírito semi-abatido. Então, inevitavelmente, vem a sensação de que é inútil tudo isso, de que não importa.

Mas preciso dizer que essas coisas que eu compartilho aqui realmente mexem comigo. São pensamentos vivos, que aos poucos moldaram – e moldam – a minha personalidade, são reflexões que me movem, que me motivam, que me acalmam ou mesmo me agoniam. Se são inúteis, como a minha melancolia às vezes acusa, e daí? Continuo, retendo firme a carícia que Montaigne faz na alma daqueles que, como eu, se acham inúteis:

Parece-me que, quando o mal nos cerca de todos os lados, é chegada a hora da frivolidade. Em um momento em que a maldade se exerce impunemente, ser apenas inútil merece louvores.” (Michel de Montaigne, em Ensaios, vol. II, Nova Cultural, p. 264).



Desta vez não vou anunciar o fim do Jardim nem um recesso por tempo indeterminado (afinal, nem tenho mais credibilidade para isso). Peço apenas um pouco de condescendência com as besteiras que eu porventura compartilhe aqui.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sobre a morte - parte 2

O único requisito realmente indispensável para um ser um filósofo é ter coragem para enfrentar qualquer assunto, colocar em questionamento qualquer certeza e ir até o fim. Às vezes dói bastante perceber que aquilo em que se acredita não tem nenhum fundamento, causa um pouco angústia, mas é isso mesmo. Fazer o quê? E aqui vamos nós, uma vez mais, tratar acerca da morte, o tema mais difícil de todos.

Para quase tudo há várias versões, sob várias perspectivas, mesmo para a morte. Se a morte é boa ou má, eu não sei. Ninguém sabe, na verdade. A mim parece má, porque encerra a vida. Mas encerra mesmo? Eu não sei. Parece que sim. Digamos que encerre: ainda assim, é necessariamente má?

Para milhões e milhões de pessoas que vivem (ou já viveram) neste mundo a vida não é (ou não foi) mais que um inferno diário, apenas um prolongamento de um grande engano que insiste em não acabar. Não é o meu caso, obviamente, e muito provavelmente não é o seu tampouco. Mas não pense que são raras as vidas assim. “Ah, Raul, não exagera”, alguém diz. Não seja leviano, eu respondo, há vidas que você não suportaria viver, talvez não suportasse nem imaginar.

É verdade que mesmo em desgraça profunda as pessoas normalmente desejam viver. Mas o desejo de que a vida se encerre logo não deve ser tão incomum. Talvez, em situações-limite de desgraça, seja melhor o nada que a vida. Se isso soa absurdo para você, ou seja, se encerrar a vida para você é algo péssimo, certamente é porque a vida para você é boa em alguma medida. No entanto, se a vida for apenas dor e desgraça, dia após dia, incessantemente, não me parece absurdo considerar que a morte não seja tão má assim.

Digo mais: não apenas para os que vivem em profunda desgraça cotidiana a morte pode parecer menos má – um bem, talvez –, mas também para aqueles que, mesmo tendo uma vida razoavelmente boa, alcançam uma percepção vivaz e profunda da realidade, do todo, aqueles que de algum modo entendem a ilusão que é esta vida e sentem sobre si as dores de uma existência vã e efêmera, em que o sofrimento está sempre na espreita.

Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho. 



E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol


Por isso odiei esta vida, porque a obra que se faz debaixo do sol me era penosa; sim, tudo é vaidade e aflição de espírito.” (Salomão, em Eclesiastes, capítulo 2, versos 10, 11 e 17).

Salomão teve tudo o que quis. Tudo mesmo, tudo, tudo, tudo: bens materiais, riquezas, mulheres, palácios, jardins, arte, poder, ciência, sabedoria. Leiam os dois primeiros capítulos de Eclesiastes para terem uma idéia. Mas olhando para tudo isto, ele concluiu: tudo era vaidade e aflição de espírito. Proveito algum havia, porque nada era duradouro, nada tinha substância, nada era novo, nada satisfazia. Então, num dos versos mais sombrios de toda a Bíblia, Salomão arremata:



Melhor é a boa honra que o melhor perfume, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém.” (capítulo 7, verso 1)


Quando leio esse verso e tento entender o que Salomão quis expressar, quase chego a ouvir Schopenhauer dizendo, sarcástico: "Se batêssemos nas pedras dos túmulos e perguntássemos aos mortos se querem ressuscitar, eles abanariam a cabeça, dizendo que não" (em As dores do mundo, p. 14)

Admitindo que a morte seja um nada, apenas um sono sem sonho e sem fim, não me parece absurda a reflexão. No entanto, por outro lado, se Salomão e Schopenhauer não optaram pelo suicídio, acho que isso significa alguma coisa: se a morte e o nada fossem preferíveis às dores da vida, por que não terminar logo com isso? Se eles optaram por continuar vivos, tendo a chance de morrer sempre acessível, temos uma contradição. Se optaram por viver, mesmo considerando melhores a morte e o nada, eu penso que foi porque havia algum bem na vida, algo que a tornava suportável, talvez boa, ainda que esse bem fosse efêmero e frágil. Uma esperança, um amor, um desejo, um sonho...

Por isso eu não desejo a morte. Ainda tenho uma esperança.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tirinhas filosóficas (ou quase isso)

(Clique AQUI para ver a imagem ampliada)


















































































Fonte: Um sábado qualquer

.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobre a morte - parte 1

Cada vez que eu me sento diante do computador para escrever um texto sobre a morte eu me vejo diante de uma tarefa impossível. Acho que esta deve ser a quinta ou sexta tentativa. Mas, seja como for, agora vai ter que sair alguma coisa. Vejamos, então.

Resolvi tratar da morte por partes porque o tema é complicado em vários aspectos. E a primeira dimensão do problema da morte é exatamente saber (1) se é possível tratar desse assunto e (2) sendo impossível dizer qualquer coisa sobre a morte, por que tratar desse assunto.

A morte constitui, para o pensamento, um objeto necessário e impossível.

Necessário, já que toda a nossa vida traz a sua marca, como a sombra projetada do nada (se não morrêssemos, com certeza cada instante teria um sabor diferente, uma luz diferente), como o ponto de fuga, para nós, de tudo.

Mas impossível, já que não há nada, na morte, a pensar. O que é ela? Não sabemos. Não podemos saber. Esse mistério derradeiro torna a nossa vida misteriosa, como um caminho que não saberíamos aonde leva, ou antes, sabemos muitíssimo bem (à morte), mas sem saber porém o que há por trás – por trás da palavra, por trás da coisa –, nem mesmo se há alguma coisa.” (André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, p. 47)
  
Sabe por que é difícil falar sobre a morte? Além de não se saber direito o que é a morte (ou o que decorre dela) – cada um pode ter, no máximo, um palpite –, o fato é que a maioria das pessoas não quer saber desse assunto, ao menos por enquanto. É um assunto inoportuno. Há apenas duas situações em que o tema ganha algum relevo prático na vida de alguém: (1) quando alguém muito querido morre ou (2) quando há alguém com uma doença muito grave, seja alguém muito querido, seja a própria pessoa. Aí, e apenas aí, a morte se torna um assunto.

Mas por que falar disso, se estamos vivos e saudáveis? Por que esse assunto agora, se ninguém morreu ou está para morrer? É sobre isso que eu queria refletir hoje.

Em poucas palavras, o mistério da morte só autoriza dois tipos de resposta, e é por isso talvez que ele estruture tão fortemente a história da filosofia e da humanidade: há os que levam a morte a sério, como um nada definitivo (é nesse campo, notadamente, que encontraremos a quase totalidade dos ateus e dos filósofos materialistas), e há os que, ao contrário, não vêem nela mais que uma passagem, que uma transição entre duas vidas, ou mesmo o começo da vida verdadeira (como anuncia a maior parte das religiões e, com elas, das filosofias espiritualistas ou idealistas). O mistério, claro, mesmo assim subsiste. Pensar a morte, dizia eu, é dissolvê-la. Mas isso nunca dispensou ninguém de morrer, nem esclareceu ninguém de antemão sobre o que morrer significava.

Para quê, então, perguntarão, refletir sobre uma questão para nós insolúvel? É que toda a nossa vida depende dela, como percebeu Pascal, e todo o nosso pensamento: não vive da mesma maneira, não pensa da mesma maneira quem acredita ou não que há “algo” depois da morte. Aliás, quem quisesse se interessar unicamente por problemas capazes de ser verdadeiramente resolvidos (e, portanto, suprimidos como problemas) deveria renunciar a filosofar. Mas como poderia, sem se amputar de si ou de uma parte do pensamento? As ciências não respondem a nenhuma das questões mais importantes que nós nos fazemos. Por que há algo em vez de nada? A vida vale a pena ser vivida? O que é o bem? O que é o mal? Somos livres ou determinados? Deus existe? Há uma vida após a morte? Essas questões, que podemos dizer metafísicas num sentido amplo (de fato, elas vão além de toda física possível), fazem de nós seres pensantes, ou antes, seres filosofantes (as ciências também pensam, e não se fazem essas perguntas), e é isso que se chama humanidade ou como diziam os gregos, os mortais: não os que vão morrer - os bichos também morrem -, mas os que sabem que vão morrer, sem saber porém o que isso quer dizer e sem poder tampouco impedir-se de pensar na morte... O homem é um animal metafísico; é por isso que a morte, sempre, é um problema seu. Não se trata de resolvê-lo, mas de enfrentá-lo.” (André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, p. 48-49)

Eu penso que a filosofia serve para uma coisa: cutucar quem está sonolento. Então, peço que me desculpe por tratar de um tema tão inoportuno como a morte, assim do nada, mas... é uma questão de vida ou de morte. De vida, principalmente.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Coisas de Arthur...

"Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exatidão a justa medida. 

Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão-de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, são, apesar dos seus ares petualentes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo.

Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem 'ad interim' [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca nos deveríamos esquecer de que só o presente é real e certo; o futuro, ao contrário, apresenta-se quase sempre diverso daquilo que pensávamos. O passado também era diferente, de modo que, no todo, ambos têm menor importância do que parecem." (Arthur Schopenhauer, Aforismos para a sabedoria de vida, Martins Fontes, 2006, p. 154-155)


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tirinhas filosóficas (ou quase isso)










Fonte: Malvados

(clique na imagem para aumentar o tamanho)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Entre o amor e a morte - um aparte

O próximo tema que eu deveria analisar aqui é a morte.  E se o amor é o tema mais interessante, como diz Sponville, eu digo a morte é o tema mais difícil, por isso a demora. A morte é não apenas a certeza de que a esperança tem seus limites, como também é a certeza de que, por mais bonita que a vida possa parecer – e muitas vezes ela parece mesmo ser bonita – há sempre uma dor imensa ali guardada para quem se atreve a amar e a viver mais do que aqueles a quem se ama.

Mas ainda não quero tratar da morte diretamente; adio um pouco mais este tema. Vamos a um tópico de transição, entre o amor e a morte, que traz um pouco dos dois.

Ontem eu fui a uma livraria no shopping e, enquanto as meninas escolhiam uns perfumes em outra loja, eu fiquei um pouco com Rousseau. Foi estranho porque eu nem esperava encontrá-lo. Eu estava sentado numa daquelas poltronas dentro da livraria, lendo uma coisa qualquer, quando Rousseau sentou-se ao meu lado, cutucou o meu braço e perguntou se eu queria ouvir uma história sobre amor e morte. Eu olhei meio desconfiado, mas respondi que sim, que adoraria.

Pois vou contar-lhe o preâmbulo de minha história, meu caro. Não é uma história feliz, posso adiantar, mas ouvi falar que você gosta de histórias bonitas e tristes, então... acho que vai se interessar.”

Eu apenas concordei com a cabeça.

Vou começar do começo, mesmo porque é o começo que interessa hoje. Na verdade, vou lhe contar a história de amor de meus pais, tão bonita e tão triste, e que resultou em mim e em minha desgraça.”

Achei o tom de Rousseau meio dramático demais, mas... como era domingo à noite, achei que ele merecia um desconto. Vamos ver onde isso vai dar.

Os amores de meus pais começaram quando eram ainda crianças. Aos oito ou nove anos passeavam juntos todas as tardes, aos dez anos já não podiam largar um ao outro. A simpatia, a concordância das almas apenas fortaleceu neles o sentimento que o hábito fizera nascer. Ambos ternos e sensíveis de nascimento, só esperavam o momento de encontrar o outro nas suas mesmas disposições; ou melhor, esse momento os esperava, e cada um deles lançou seu coração no primeiro que se abriu para o receber.”

Que bonito, eu pensei. Sem ironia...

Mas a família de meu pai não tinha muitas posses, enquanto a de minha mãe era bem mais rica. Não foi sem dificuldade que meu pai a conquistou. O jovem amante, não podendo obter a amada, consumia-se em dor; e ela o aconselhou que viajasse para esquecê-la. E ele viajou para bem longe, mas, tempos depois, voltou mais apaixonado do que nunca. E encontrou a amada mais terna e mais fiel. Depois dessa prova, meu caro, nada mais restava senão amarem-se por toda a vida; e isso juraram, e o céu lhes abençoou o juramento. Mas as dificuldades sociais não tinham sido totalmente vencidas, pois a família de minha mãe não era simpática a esta união.

Acontece que o amor tem os seus meios, e o irmão de minha mãe se apaixonou pela irmã de meu pai. Mas minha tia disse que só aceitaria se casar se ele, irmão de minha mãe, consentisse que ela, minha mãe, se cassasse com meu pai. E assim foi. O amor tudo arranjou e fizeram-se, no mesmo dia, os dois casamentos. Mas ainda restava um último teste.

Meu pai era relojoeiro e, depois do nascimento de meu irmão mais velho, meu único irmão, partiu para Constantinopla, onde o chamavam para uns trabalhos importantes. Minha mãe e meu irmão pequeno ficaram em Genebra. Na ausência de meu pai, a beleza de minha mãe, seu espírito, suas prendas atraíram-lhe, digamos, algumas homenagens. O sr. de La Closure foi o mais apressado em prestar essas homenagens, e devia ser muito grande a paixão dele, porque, depois de trinta anos, certa vez o encontrei e senti a ternura em suas palavras ao falar dela. Minha mãe, para se defender, tinha mais do que virtude: amava ternamente o marido. Escreveu para meu pai e apressou-o a voltar logo: ele deixou tudo e veio. Eu fui o triste fruto dessa volta. Dez meses depois, nasci, franzino e doente. Custei a vida a minha mãe e meu nascimento foi a primeira de minhas desgraças.”

Nesse momento senti que Rousseau falava a verdade. Não fazia drama. Senti que suas palavras eram carregadas de sentimentos bonitos e tristes por sua mãe, que ele nem conheceu (mas sabia que fora uma pessoa maravilhosa). Meus olhos lacrimejavam um pouco. E continuou:

Não sei como meu pai suportou essa perda, mas sei que ele não se consolou nunca. Revia a mulher em mim, sem poder esquecer que fora eu que lhe roubara; nunca me abraçou sem que eu sentisse nos seus suspiros, nos seus abraços convulsos, que uma amarga saudade se misturava a suas carícias, que nem por isso eram menos ternas. Quando ele me dizia: ‘Jean-Jaques, falemos em tua mãe’, eu retrucava: ‘Ah, meu pai, vamos então chorar’; e só essa palavra lhe arrancava lágrimas. ‘Ah, dizia ele, devolve-ma, consola-me, enche o vácuo que ela deixou na minha alma. Amar-te-ia eu tanto se não fosse apenas meu filho?’ 


Quanrenta anos depois de a haver perdido, meu pai morreu nos braços de uma segunda mulher, mas com o nome da primeira na boca e a sua imagem no fundo do coração. Foram esses, meu caro, os autores de meus dias. De todos os dons com que o céu os aquinhoou, só me deixaram foi um coração sensível: e isso, entretanto, que fez a felicidade deles, fez todas as desventuras da minha vida.”

A esta altura eu já chorava, ali mesmo, sentando na poltrona da livraria. Rousseau viu que eu chorava e calou-se. Colocou a mão na minha nuca, fez um cafuné e levantou-se para ir embora. Mas quando ele se virou para ir embora, eu perguntei: “Mas Jean-Jaques, então... não vale mesmo a pena?”. De costas, ele parou por um instante. Em seguida, começou a caminhar e foi embora sem me responder.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O amor - parte 2

Aquilo que nós chamamos de "amor", em grego pode ser expresso por três palavras diferentes: erosphilia e agapé. Acho que já ouviram falar nisso, mas aqui vai um pequeno resumo.

Eros é o amor por aquilo que falta, é o amor por aquilo se deseja. É paixão. É carência, de certa forma. "Eu te amo: eu te quero." Eros quer tomar para si, quer possuir. Mas a questão é que eros nunca está satisfeito, e nem pode estar, porque ama o que não tem. Deseja, deseja e deseja... Ama na expectativa de ter. É o amor segundo Platão.

Por outro lado, philia é a alegria de amar o que se tem. É o prazer da companhia de um amigo querido, é o prazer de conversar por horas com aquele a quem se ama, é o encontro de si mesmo no outro que nos satisfaz. Philia é o amor alegre, é o amor satisfeito, correspondido. "Eu te amo: és a causa da minha alegria". É o amor segundo Aristóteles.

Agapé, por fim, é um amor totalmente diferente dos outros dois tipos. É o amor desinteressado, é o amor pelo outro que nem nos faz falta nem nos faz bem. É o amor pelo outro, ainda que não haja nenhum benefício. Ainda que haja prejuízo. É o amor que dá e acolhe, simplesmente porque o outro precisa, na sua fraqueza. É o amor segundo Cristo ou Paulo de Tarso.

Mas o que me parece mais interessante na explicação de Sponville sobre esse assunto é que estes três tipos de amor não se excluem, mas são três dimensões de uma mesma realidade, três fases de um processo:

"Eros, philia, agapé: o amor que falta ou que toma, o amor que se regozija e compartilha, o amor que acolhe e dá... Não se apressem muito a escolher entre os três! Que alegria há sem falta? Que dom sem compartilhar? Se cumpre distinguir, pelo menos intelectualmente, esses três tipos de amor, ou esses três graus no amor, é principalmente para compreender que os três são necessários, todos os três estão ligados, e para iluminar o processo que leva de um ao outro. Não são três essências, que se excluiriam mutuamente; são antes três pólos de um mesmo campo, que o campo de amar, ou três momentos de um mesmo processo, que é o viver. Eros é primeiro, sempre, e é o que Freud,  depois de Platão e Schopenhauer, nos lembra; agapé é o objetivo (para o qual podemos ao menos tender); enfim, philia é o caminho, ou a alegria como caminho: o que transforma a carência em potência e a pobreza em riqueza.(André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, p. 43-44)

Claro que bom mesmo é o amor satisfeito. É a melhor alegria. E todos os amantes e todos os amigos sabem disso. Mas mesmo o amor-que-sofre também ama e se alegra no desejo ter para si o que ama. É um amor que dói, um amor carente, mas que se alegra e se alimenta na esperança e da expectativa de ser satisfeito. Ou pelo menos se alegra pela possibilidade. Tem potencial.

Eros quer ser feliz. Philia é feliz por definição. Agapé quer que o outro seja feliz; essa é a sua felicidade.

 É preciso amar, diz Sponville, e é preciso amar das três formas: (1) o desejo ardente de tomar para si, (2) o gozo de desfrutar da alegria de ter aquilo que se ama e compartilhar desse gozo, e (3) a doação de si para ou outro. 
"Eu te amo, tu me fazes falta, eu te quero." 
"Eu te amo: és a causa da minha alegria, e isso me regozija." 
"Eu te amo como a mim mesmo, que não sou nada ou quase nada, eu te amo como Deus nos ama, como qualquer um: ponho minha força a serviço da tua fraqueza, minha pouca força a serviço da tua imensa fraqueza..." 
"Eu te amo de todas essas maneiras: eu te tomo avidamente, eu compartilho alegremente tua vida, tua cama, teu amor, eu me dou e me abandono suavemente..." 
"Obrigado por ser o que és, obrigado por existir e por me ajudar a existir!"

Essa é a declaração filosófica de amor mais bonita que eu já vi. Não é minha, claro: é de Sponville. Acho até que ele nem ama desse tanto, talvez seja apenas um modelo. De qualquer forma, rende uma boa reflexão.