domingo, 11 de outubro de 2009

Como é que é?

Esse lance da linguagem é um negócio muito interessante. Parece algo simples, sem maiores complicações; uma pessoa fala (ou escreve ou faz um gesto) e outra pessoa ouve (ou lê ou vê o gesto) e assim foi estabelecida a comunicação entre elas. Uma entendeu o que a outra estava pensando.

















Mas nem sempre é assim.


Há algumas dificuldades nesse processo, e uma delas, por incrível que pareça, é que há pessoas que parecem não se esforçar muito para serem claras o máximo possível e, com isso, parecem não se importar nem um pouco se as outras pessoas vão entender ou não o que ela está dizendo (ou escrevendo). Eu mesmo tive alguns professores assim e já li alguns livros escritos por pessoas desse tipo. Sei o que estou falando.

Mas nem sempre esse é o problema. Às vezes o problema é a diferença de perspectiva em cada um dos interlocutores. Às vezes aquele que fala se encontra "preso" na sua própria perspectiva e não percebe que aqueles que o ouvem (ou lêem seus escritos) estão tentando compreender em um outro enquadramento, de modo que, ainda que se tente ser claro o máximo possível, não há entendimento.

Eu sou professor de Filosofia do Direito e, na grade curricular, esta disciplina está no sétimo semestre do curso de graduação em Direito. Isso pode ser tornar um pouco problemático pois a maioria dos alunos do sétimo semestre já está vivenciando a prática jurídica, estudando para concursos públicos ou estagiando, numa realidade aparentemente distante das viagens filosóficas de Aristóteles, Kelsen, Dworkin e Alexy. Para piorar a minha situação, a disciplina no turno da noite ficou no horário CD (20:20 - 22:00) da sexta-feira. Imaginem aí a distância entre a minha perspectiva e a perspectiva (da maioria) dos alunos. Por mais que eu tente e me esforce em ser claro, às vezes tenho a nítida impressão de que eu estou falando sobre uma coisa e os alunos estão pensando em outra coisa absolutamente diferente.

Isso me lembra a seguinte historinha.

Um homem vai até o confessionário e diz ao padre:

"Padre, eu tenho 75 anos e ontem à noite eu fiz amor com duas garotas de 20 anos.... juntas!"

O padre pergunta:

"Quando foi a última vez que você se confessou?"

O homem diz:

"Eu nunca me confessei, padre. Eu sou judeu."

O padre diz:

"Mas então por que você está me contando isso?"

E o homem respondeu:

"Ora, eu estou contando para todo mundo!"

(Fonte da piadinha safada: Platão e um ornitorrinco entram em um bar..., de Thomas Cathcart e Daniel Klein, p. 154)

A propósito, esse livro foi uma feliz sugestão do meu colega George Marmelstein, que ainda me emprestou o livro. Valeu, George!



10 comentários:

Anônimo disse...

Raul,

Não consigo entender a lógica da vida.Se é que há alguma lógica!
Não consigo entender porque uma única pessoa é capaz de suprir toda necessidade de entendimento e esclarecimentos de uma outra que nem sequer a conhece bem.
E mais. Sem a mínima intenção de obter esse "crédito" ou "responsabilidade", digamos assim.

Seria muito bom se pelo menos a mínima parte dos professores tivessem essa preocupação(se fazerem entendidos).Facilitaria muito a vida de todos.Inclusive a deles.

Por mais que eu tenha minhas limitações de entendimento ou vocabulário sempre consigo ordenar e entender suas postagens aqui no blog.

Você escreve de forma simples,clara e nem por isso suas postagens tornam-se menos interessantes.

Raul,dê vazão à sua vocação.
É uma questão de tempo.Pouco tempo para que suas palavras passem a fazer parte da mente de milhares de pessoas.
Se esse não for seu objetivo, ainda assim continue por aqui.
Se mudar de ideia,já terá muitos leitores e muitas histórias para contar.
Abraço,
Karla.

Raul Nepomuceno disse...

Ô, Karla. Muito obrigado pela suas palavras gentis. Significam muito para mim.

Anônimo disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Amei a piadinha safada!!!!!!!!!!!!!!!

Renta,

Cláudia disse...

Oi Raul, tudo bem, o seu blog está em primeiro lugar nos meus sites favoritos, todos os dias entro e olho se tem algo novo e por incrível que pareça fico triste ao ver que você não postou nada novo.
Já indiquei a várias pessoas da minha família e amigos, todos gostaram e leem bastante, sempre gostei de filosofia e poesia, de saber quem são os filósofos, como viviam, os seus pensamentos e acredito que todos que gostam são pessoas que fazem o diferencial nesse mundo, pois aprendem a pensar, coisa muito rara hoje em dia..
Beijos para você e sua família.
Cláudia Vasques.

Cláudia disse...

Raul, o seu blog é muito visitado, apenas vejo que as pessoas entram e saem e não comentam, apenas gostam e viram seu seguidor, mas ao ler elas nunca serão as mesmas, você já parou para pensar no bem que está fazendo?
Uma pessoa que pensa como o Senhor no mundo de hoje é raro!
É com imenso prazer que desfrutamos dessa jóia rara, o problema é que as pessoas não falam.
Em relação a aula, claro que o horário é péssimo, já estamos muito cansados, principalmente quem trabalha e estuda a semana inteira, mas muitas coisas das suas palavras ficam, apesar de se misturarem a vontade de sair correndo daquela faculdade.
Afinal, nem tudo é perfeito, ou seja, nem tudo são flores.
Beijos.

Raul Nepomuceno disse...

Ah, Cláudia, sei nem o que dizer. Muito obrigado por visitar sempre o Jardim e por divulgá-lo.

É muito bom saber que as reflexões que eu proponho alcançam pessoas como você. Muito bom, você nem imagina. Aliás, já pensei em desistir do Jardim umas 840 vezes, mas ainda não desiti somente por isso, porque acho que mesmo com as minhas limitações há coisas importantes a serem compartilhadas. Não quero seguidores, quero apenas companheiros(as) de reflexão.

Obrigado, mais uma vez. Um abraço,

Raul.

soraia disse...

Raul,
você viu o meu comentário no post "Coisas de Arthur" do dia 25 de setembro?
Parabéns pelo blog, está cada vez melhor!!!

PS.- Por favor leia o e-mail que te mandei pelo HOTMAIL.
Obrigado.
Soraia.

Raul Nepomuceno disse...

Oi, Soraia. Li sim, muito obrigado. Também já vi o e-mail e já respondi!

Um abraço,

Raul.

bianca disse...

É incrível como você domina “esse lance da linguagem”. Vim com a lembrança daquele auditório cheio ontem à tarde, onde, mais uma vez, nos surpreendeu com suas palavras. Ali houve o tal encaixe das perspectivas e está de parabéns! Muito bom.. assim como o blog!Bianca

Raul Nepomuceno disse...

Bianca!!! Que legal você por aqui!

:)

Muito obrigado pela visita e pelos comentários, viu? Venha sempre!

Um abraço,

Raul.

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