domingo, 27 de novembro de 2011

Oito minutos

por mim mesmo


Havia um país – tão remoto quanto autoritário – cuja lei proibia e punia severamente pessoas casadas que praticassem gestos de ternura e de amor às vistas dos outros e onde flagrar pessoas casadas dormindo juntas ou apenas se beijando era algo muitíssimo mais grave e mais vergonhoso que serem apanhadas fazendo isso com amantes extraconjugais. A pena era grave: dez chibatadas e multa de vinte salários mínimos para cada cônjuge. No caso de reincidência, vinte chibatadas e prisão perpétua com trabalhos forçados (sem direito a contato entre os cônjuges, nem mesmo por escrito).

Havia fiscais por toda parte, a toda hora.

Neste lugar, pessoas casadas marcavam encontros às escondidas, apenas para uns beijinhos furtivos e abraços clandestinos. Eram sempre encontros muitos raros e rápidos, com o coração palpitando pelo receio de serem vistos. Secretamente, maridos compravam presentes para as esposas, e esposas para os maridos, mesmo coisinhas pequenas, que tinham de ser entregues num canto escondido que ninguém visse, dentro de um carro estacionado em lugar ermo ou na escadaria escura de um prédio. Qualquer gesto de afeto em público era um risco, de modo que era preciso ter muito cuidado, especialmente para cônjuges que trabalhavam juntos e conviviam diariamente.


As crônicas desse infeliz lugar registram a história de um casal distinto, ambos professores universitários, respeitados na sociedade, e que eram casados havia doze anos. Moravam separados, e seus encontros eram poucos e furtivos, nos moldes acima descritos. Certa feita – estavam duas semanas sem se ver –, eles marcaram um encontro no cinema às três horas da tarde, num dia de terça-feira. Era a melhor sessão, pois o cinema sempre estava vazio. Naquela manhã, ela acordou pensando nele, e ele pensando nela. Arrumaram-se um para o outro. Passaram a manhã trocando mensagens de celular, em códigos, mensagens que eram imediatamente excluídas, por questão de segurança. Almoçaram cada um no seu canto, um pensando no outro, contando os minutos para o encontro. Quando chegou a hora, foram ao cinema, mas, obviamente, foram separados. Cada um comprou seu ingresso e entraram. A sala de cinema estava quase deserta, só havia mais duas ou três pessoas. Ela entrou primeiro e sentou-se bem no cantinho, no lado oposto ao da entrada. Não havia ninguém por perto. Ele foi ao banheiro para esperar um pouco até as luzes da sala se apagarem. Quando começaram os trailers, ele entrou e foi sorrateiramente sentar-se ao lado dela.

– Você está tão linda, ele disse baixinho ao pé do ouvido dela.

Ela se derreteu toda, sorrindo. E disse com carinho:

– Que saudade de você, meu amor...
           
Eles nem viram os trailers, porque começaram um beijo que durou oito minutos. Sem parar. Intensamente. Pele com pele, toques delicados, cabelos, cheiros, lábios, línguas, saliva, carinho, pulso, poesia... Oito minutos. Quando acabou o beijo, o filme já tinha começado e eles nem perceberam. Ficaram ali, abraçadinhos, com aquela sensação de que nada mais era relevante e de que tudo estava muito bem, ao menos enquanto estivessem juntos.

Ocorre que, no meio do filme, eles notaram um homem se aproximando pelo corredor lateral, por trás, com passo lento e cadenciado. Os dois estremeceram. O homem parou ao lado deles, abaixou-se lentamente e sussurrou com uma voz grave e calma:

– Com licença. Vocês são casados?

Largaram a mão um do outro.

– Claro que não, imagina, ele disse, tentando disfarçar a tensão. Ela é só minha namorada.

– Posso ver a identidade de vocês?

Eles entregaram as identidades. O homem chamou a central pelo rádio e informou o nome dos dois. E logo veio a confirmação de que eram casados.

– Me acompanhem, por gentileza, disse o homem em tom solene e delicado.

– Mas a gente não estava fazendo nada, moço...

– ME ACOMPANHEM, POR GENTILEZA!, repetiu o homem pausadamente, desta vez aumentando um pouco a voz e com alguma rispidez.

Os dois foram algemados e enfiados cada um em uma viatura da polícia. Separados, ela chorava e ele se compungia profundamente com a visão dela chorando. Foram levados à corte especial e julgados sumariamente naquela mesma tarde. Descobriu-se que eram reincidentes – aliás, carregavam nas costas as cicatrizes das dez chibatadas de quatro anos atrás. O defensor público pediu clemência ao juiz, apelou à sua compaixão, invocou o direito natural, alegou insanidade temporária, mas de nada adiantou.

– Fosse apenas um afago discreto ou um ósculo mínimo, disse o magistrado, poderia até cogitar um indulto aos consortes. Talvez uma pena alternativa. Mas o policial testemunhou que foram oito minutos de beijo! Oito minutos! Intolerável... Dura lex, sed lex, sinto muito, e bateu o martelo.

Foram condenados à prisão perpétua com trabalhos forçados, como mandava a lei, sem direito a manter contato um com o outro, para sempre. E o juiz, com a consciência íntegra, saiu mais cedo do fórum dizendo que tinha uma reunião importante, mas na verdade foi fazer uma surpresa clandestina para sua esposa, que ele não via desde a semana anterior e que estava em casa com saudade dele. Levou flores e tudo.

Quanto ao nosso casal de condenados, posso dizer que jamais se arrependeram de seus crimes. Passaram o resto da vida longe um do outro, sem contato, infelizmente. E todas as noites os dois adormeciam com a doce lembrança daqueles oito minutos.

                        FIM

8 comentário(s):

  1. E o autor do texto, é você?

    A do rei!!!!
    O ser humano é muito complexo!!! Acho que você entende.

    Karla.

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  2. Definitivamente te admiro tanto!
    Beijos meu querido amigo!

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  3. Ali relendo a primeira parte do texto e uma pergunta martelando incessantemente na cabeça: O que levaria as pessoas a escolherem o matrimônio em um país como esse!?

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  4. Talvez essa lei tenha entrado em vigor quando as pessoas já eram casadas.

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  5. Adorei o texto!
    Esse nosso prof é muito prendado mesmo...heheh
    Parabéns! :-)

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