Como disse antes, até uma certa idade a maioria das pessoas só reflete seriamente sobre a morte quando alguém querido morre ou quando essa pessoa querida (ou ela própria) está gravemente doente, na iminência de morrer. E mesmo depois da morte de alguém querido, como a vida sempre segue seu rumo, o tempo passa e o assunto "morte" vai caindo no esquecimento de novo.
Mas por que seria diferente?, alguém pergunta. Por que pensar na morte? Por que pensar na morte se ninguém morreu ou está para morrer? Por que pensar na morte se ela não está por perto? Por que pensar na morte se há tanta vida a ser vivida?
Mas por que seria diferente?, alguém pergunta. Por que pensar na morte? Por que pensar na morte se ninguém morreu ou está para morrer? Por que pensar na morte se ela não está por perto? Por que pensar na morte se há tanta vida a ser vivida?
São perguntas interessantes. Na primeira parte da série sobre a morte há um esboço de resposta: a nossa concepção do que é a morte acaba exercendo uma influencia muito forte sobre a nossa concepção do que é a vida e de como se deve viver.
Para o indivíduo que morre, a morte é o fim de tudo? Ou há algum tipo de consciência que subsiste depois da morte do corpo? Há outras vidas a serem vividas, em outras dimensões? Há alguma prestação de contas no além? Ou há apenas um nada, um sono sem sonho e sem fim? Qualquer resposta não passa de palpite, seja da parte dos ateístas, seja da parte dos místicos e religiosos. Ninguém sabe.
Seja como for, acho que vive melhor quem aprende a lidar com a idéia da morte, quem aprende a morrer. Não se trata de desistir da vida e desejar a morte. Não se trata de se tornar uma pessoa mórbida, que só vive a pensar na morte o dia inteiro, esperando a morte chegar. Nada disso. Trata-se de se acostumar com a idéia de que vamos morrer, trata-se da aprender a aceitar isso com calma, sem medo ou relutância.
“Filosofar é aprender a morrer somente porque é aprender a viver e porque a morte – a idéia da morte, a inelutabilidade da morte – faz parte desse aprendizado. Mas é a vida que vale, e somente ela. Os verdadeiros filósofos aprendem a amá-la como ela é; por que se apavorariam com o fato de ela ser mortal?
Nada ou o renascimento? Outra vida ou mais nenhuma vida? Cabe a cada um escolher entre esses dois caminhos, e pode inclusive – como os céticos, como Montaigne talvez – se recusar a escolher: deixar a questão em aberto, como de fato é, e habitar essa abertura que é viver. Mas ainda é uma maneira de pensar na morte, e temos de pensar nela mesmo. Pois como não pensaríamos no que é – para todo pensamento, para toda vida – o horizonte último?” (André Comte-Sponville, Apresentação da filosofia, p. 50-51)
Pensar sobre a morte sempre deixa a gente meio melancólico. Mas isso de modo algum tira a vontade de viver ou beleza que a vida pode ter. Ao contrário, pensar sobre a morte pode nos proporcionar a algo muito importante (e valioso) em relação à vida mesma: a compreensão e a aceitação de que é preciso amar a vida como ela é, e isto inclui o fato de que ela é frágil e passageira, pois a morte faz parte dela. Em outras palavras, é preciso pensar na morte e aceitar a morte para aceitar a vida.

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