“A coisa em que o homem livre menos pensa é na morte”, escreveu Spinoza, “e sua sabedoria não é uma meditação sobre a morte, mas sobre a vida”. Epicuro ensinava que a gente não deveria se preocupar com a morte, pois “enquanto somos, a morte ainda não chegou, e quando ela chega, não somos mais”.
Parecem reflexões incompatíveis com o que eu escrevi aqui nas postagens anteriores. Afinal, deve-se ou não pensar na morte? Ora, fico pensando como Spinoza e Epicuro chegaram a essas conclusões sem antes terem pensado bastante na morte (e na beleza frágil da vida). Seria possível? A conquista dessa liberdade de viver sem se preocupar muito com a morte é, na verdade, um segundo estágio, que só pode ser alcançado quando a idéia da morte já foi assimilada e a fragilidade da vida compreendida, depois de alguma reflexão. Apenas aí a meditação sábia pode se voltar para a vida. Apenas aí a vida pode se tornar um prazer calmo e despreocupado.
É necessário ter pensado muito na morte para escrever isto:
"Qualquer que seja a duração de sua vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dá. Há quem viveu muito e não viveu. Medite sobre isso enquanto o pode fazer, pois depende de você, e não do número de anos, ter vivido o bastante. Imaginava então nunca chegar ao ponto para o qual se dirigia? Haverá caminho que não tenha fim? E se o fato de ter companheiros pode consolar, pense que o mundo inteiro segue caminho idêntico.
Vamos agir e prolongar os trabalhos da vida tanto quanto possível, e que a morte me encontre plantando meus repolhos, mas despreocupado com ela, e mais ainda com o meu inacabado jardim." (Michel de Montaigne, em Ensaios, vol. I, Nova Cultural, p. 99 e 103)
Não há consolo para a morte; ela é triste. Mas a vida não precisa ser triste, não enquanto houver algum jardim para se cuidar.

Para mim a morte é triste não porque eu tenha medo de enfrentá-la, mas por medo de não reencontrar aqueles que ela já levou...as quais amo demais....
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