por mim
Uma noite dessas, cansado e sem esperança, eu estava deitado em minha cama, no escuro, ouvindo alguma canção triste e tentando fechar os olhos para chegar logo o dia seguinte. Era uma daquelas noites que parecem que não vão acabar nunca. Então, de repente, um vento forte entrou pela janela e fez-se um clarão no meu quarto. Tomei um susto, dei um pulo da cama. Fiquei meio cego pela intensidade da luz que se fez. Esfreguei os olhos e, com alguma dificuldade, consegui ver um vulto que apareceu, um tanto embaçado, um tanto sombrio.
- Tenho uma proposta para você, disse o vulto com uma voz suave de mulher.
- Quem é você?
- Sou Maya.
Eu tremia, sem saber o que diabo era aquilo.
- Maya?!
- Sim.
- E qual é a sua proposta?, perguntei.
- Olhe ali pela janela, disse o vulto. Veja: ali estão todas as dores e todos os males do mundo.
Eu me aproximei da janela e olhei para fora. Mesmo sem enxergar direito eu olhei e vi algo que não posso descrever. Vi claramente todo tipo de sofrimento que se possa imaginar; miséria, fome, doenças de várias espécies, injustiças de várias espécies, solidão, tortura, morte, abusos sexuais, medo, ódio, traição, desespero, prisão, opressão, guerras, guerrilhas, sonhos frustrados, separação, abandono, do mundo inteiro. Senti um peso tremendo no peito, uma agonia sem tamanho. Caí no choro.
Olhei de volta para o vulto, sem entender nada.
- A minha proposta é a seguinte: se você desejar, posso repartir todos os males e todas as dores do mundo igualitariamente entre os homens e mulheres que vivem sob o véu dessa existência. Nenhuma pessoa sofrerá nem mais nem menos que a outra. Todos sofrerão exatamente na mesma medida, inclusive você. Quer isto ou permanecer com a sua quota-parte? Você escolhe.
Sentado no chão, eu chorava de um jeito que nunca chorei antes, como quem quer desaparecer para sempre. Como eu poderia escolher uma coisa dessas?
- E então, o que vai ser?, ela insistiu. Não tenho muito tempo.
- Quero a minha parte mesmo, respondi envergonhado.
- Pois assim seja.
Fez-se uma nova ventania e outro clarão. O vulto sumiu. Ainda um tanto confuso, olhei para a janela e percebi que começava a amanhecer.
Sentei-me na cama, olhei ao redor, estava tudo como antes. Os primeiros raios de sol entravam pela janela como que anunciando uma sobrevida, mais um dia. Lembrei-me das coisas que tinha para fazer e já não sentia tanto cansaço. Talvez tivesse alguma esperança.
FIM

Vamos tentar uma possível interpretação:
ResponderExcluirMaya ( ou sonho, ilusão) é o desejo. Esse desejo é atraído pelo autor. Ele diz que ela entra pela sua janela, na verdade ele a atrai para o seu quarto, o lugar mais íntimo da casa, seu refúgio, mas ela também ameaça esse mesmo local... ela chega e não tem medo de adentrar em um local que não é o seu, por isso ela o assusta.. ela tem essa intenção! Sua voz é suave e ela é um sonho... reflete um desejo romantizado de encontrar alguém que não é real. Mas ao mesmo tempo ela lhe traz muito medo, afinal ela traz consigo todas as dores do mundo. Veja: ela traz muito mais sentimentos negativos do que positivos.. o autor está extremamente temeroso de se envolver com esse ser profundo, complexo... que é capaz de adentrar na sua casa, na hora que bem entende e lhe exigir que decida se vai dividir as dores do mundo inteiro. O autor sabe que a sua dor já é muito grande, ele quase já não consegue suporta-la.. Afinal, ele também não escreve sobre sentimentos profundos e todas as dores? Ela faz com ele se sinta covarde, egoísta, ele sente culpa e desprezo por si mesmo. Ele não quis dividir as dores do mundo, apenas a sua dor lhe basta...
Mas ele prefere ficar em seu porto seguro e ela vai embora...ele sabe que fez o certo, no outro dia já não se ressente... Será o fim?
Gostei muito da sua interpretação, caro anônimo. O que mais importa, para mim, é que tenha causado algum sentimento mais profundo, de reflexão. Se causou, está excelente, independentemnete da interpretação. Um abraço.
ResponderExcluirRaul,
ResponderExcluirQueria tanto que um dia você descobrisse que errou e que os pensamentos tristes não têm razão de ser, nem nunca tiveram. E que essa descoberta te fizesse sorrir aliviado e seguir em frente, livre de um peso que parece te acompanhar há um tempo.
Queria tanto te ver descansado, com noites tranquilas de sono profundo. E saber que você acorda de manhã satisfeito, como um menino de 9 anos em mês de férias. Te ver saciado com todas os teus questionamentos exaustivamente esclarecidos, não sobrando espaço para qualquer insegurança (ou culpa).
É desesperador quando a gente pensa que só pode contar com as próprias forças e olha pra si e não se vê comprometido com os projetos de mudança que nós julgamos necessários. Ver tanta gente aí fora fazendo mal pra tantas pessoas e sentir-se compactuando com isso, por omitir-se... isso vai matando a gente aos poucos.
Raul, quem como Deus? A gente pode até não ter forças...mas quem como Deus?
Não quero ser pretenciosa e peço desculpas porque com esta mensagem não suficientemente refletida posso acabar falando emotivamente, sobre coisas e sentimentos e idéias que nem sei bem. Mas é que eu queria que isso passasse e que você vivesse bem de verdade. Plenamente bem.
Que nesse Natal, Raul, não um vento, mas uma brisa leve venha te visitar. E que ela arraste toda a aflição. Pede pra ela levar, Raul, toda a dor. Você não precisa arcar com quota de aflição alguma. Deixa essa brisa levar, pra bem longe, todo o peso.
Lembrei de algo que li: no começo, era o caos. Mas o Espírito de Deus foi capaz de transformar o caos em um grande bem. Ele tudo pode ordenar, suavizar. Mas é preciso humildade, pra se deixar conduzir. Não há mal que não possa ser convertido em um bem muito maior.
Vou deixar um link aqui. Dá uma olhada: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html
Feliz Natal! Um novo tempo, nova vida, pra você e toda sua família, professor. Abraço,
Gabi
E mais uma mensagem :)
302. A criação tem a sua bondade e a sua perfeição próprias, mas não
saiu totalmente acabada das mãos do Criador. Foi criada «em estado de
caminho» («in statu viae») para uma perfeição última ainda a atingir e
a que Deus a destinou. Chamamos divina Providência às disposições
pelas quais Deus conduz a sua criação em ordem a essa perfeição:
«Deus guarda e governa, pela sua Providência, tudo quanto criou,
"atingindo com força dum extremo ao outro e dispondo tudo suavemente"
(Sb 8, 1). Porque "tudo está nu e patente a seus olhos" (Heb 4, 13),
mesmo aquilo que depende da futura acção livre das criaturas».
[...]
310. Mas, porque é que Deus não criou um mundo tão perfeito que nenhum
mal pudesse existir nele? No seu poder infinito, Deus podia sempre ter
criado um mundo melhor. No entanto, na sua sabedoria e bondade
infinitas, Deus quis livremente criar um mundo «em estado de caminho»
para a perfeição última. [...]
311. Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem
caminhar para o seu último destino por livre escolha e amor preferencial. "
fonte: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html
Que linda mensagem! Suas palavras me tocaram de uma forma muito especial, Gabi.
ResponderExcluirÉ sempre um prazer passear aqui pelo Jardim porque alem do que o Raul posta, eventualmente leio comentários preciosos como o seu.
Cordialmente,
Karla.
O texto me faz lembrar minhas próprias lamentações.
ResponderExcluirMaria
Gabizinha, querida Gabi,
ResponderExcluirsuas palavras são tão cheias de afeto que sempre que eu tentei esboçar algum comentário eu nem consegui escrever coisa alguma, constrangido e compungido.
Eu ainda nem sei o que dizer em relação a tudo o que você escreveu, posso dizer apenas que penso muito nisso, nas suas palavras. Não me deixe só aqui, por favor. Sua companhia é tão valiosa que você nem imagina o quanto.
Um beijo e obrigado.
Raul.
raul, obrigada pela resposta também tão afetuosa. esta minha mensagem tá chegando com um delay de alguns vários dias, mas não é que eu só tenha visto sua resposta hoje, viu?
ResponderExcluirminha resposta saiu curta, mas é que não me agradei do que vinha rabiscando aqui. então, por hoje, acho que é isso: um abraço e ótimo domingo!
Gabi
raul, se eu tivesse que chutar, eu diria que você nunca está, nem nunca esteve sozinho.
ResponderExcluiracho dentro do seu coração habita alguém que compreende tudo o que você traz com você, todas as situações pelas quais você passa, todo o seu esforço, toda a sua vontade, sua inteligência, sua imaginação. alguém mais íntimo de você do que você mesmo.