quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Em oculto, sob máscaras

Outro dia reencontrei pessoas queridas que conheci há mais de vinte anos, quando éramos todos ainda crianças, aquele encontro clássico com o pessoal dos tempos de escola. Esses encontros sempre fazem reviver uma época em que a vida era leve e simples, tão leve e tão simples que apenas a lembrança daqueles dias é doce o suficiente para fazer sentir aquela alegria triste que vem da saudade.

"Vinte anos...", eu fiquei pensando. De vez em quando dá um estalo e a gente percebe o tempo. Vinte anos é um tempo considerável na vida de uma pessoa. Quanto a mim e aos meus colegas de escola, todos agora são adultos, com responsabilidades, conduzem procedimentos cirúrgicos, conduzem demandas jurídicas, conduzem pesquisas científicas avançadas, lecionam em universidades, administram setores das forças armadas, pilotam jatos, pilotam helicópteros, administram milhões de reais em instituições financeiras, projetam e constroem edificações, programam computadores, administram a própria empresa, cuidam do bem-estar físico e mental de outras pessoas, cuidam de casa, fazem tantas outras coisas importantes, muitos com filhos para cuidar e educar, alguns já calvos, outros mais gordos (meu caso), alguns cabelos brancos, algumas marcas de expressão no rosto. São adultos, como disse, gente grande, responsável.

Mas olhando para cada um eu juro que ainda vejo nitidamente meus colegas de sala lá da quinta ou sexta série. Tenho certeza de que passaram por muitas experiências nesses mais de vinte anos, aprenderam bastante coisa, viveram bastante coisa, mas no fundo, no fundo, são apenas meus colegas de sala. Aliás, olhando bem perto no espelho muitas vezes também me vejo assim; no conteúdo essencial, a mesma criança de vinte e tantos anos atrás.

Apenas uns poucos anos a mais – não demorará – e poderei dizer como  André Comte-Sponville :

A maturidade não existe, ou só existe para os outros. Será que esse homem pouco mais velho que eu, que cumprimento no elevador, sabe que quem lhe fala é um menininho, um pouco intimidado, um pouco envergonhado de ter de falar com um adulto como se ele mesmo fosse um, e surpreso, sim, quase envaidecido, apesar dos seus 50 anos, de que o outro pareça acreditar nisso? Certamente tão pouco quanto eu conheço esse menininho que meu vizinho continuou sendo para si mesmo, sem que ninguém soubesse e como que absurdamente escondido sob os traços de um quase sexagenário...

Não existe gente grande. Existem apenas crianças que fazem de conta que cresceram, ou que de fato cresceram sem no entanto acreditar plenamente nisso, sem conseguir apagar a criança que foram, que continuam sendo, apesar de tantas mudanças, que carregam consigo como a um segredo, como um mistério, ou que as carrega...

Ser adulto é ser um coadjuvante. Ao menos é assim que eu me sinto, sabendo que não sou o único, embora não tenha a certeza de que estejamos todos incluídos nesse caso. Deve-se dizer que, nesse papel, alguns são prova de um talento singular, feito de seriedade e suficiência, que vai até o ponto de enganar a eles mesmos. Quem sabe, contudo, isso não passe de uma aparência que eu também às vezes passo para outras pessoas... Quem sabe? O rosto é uma máscara, ainda mais enganadora, como diria Pascal, porque nem sempre o é.” (André Comte-Sponville em A vida humana, Ed. Martins Fontes, p. 83)

E esta é uma certeza que nos acompanha, em oculto, sob máscaras: morremos crianças. Morreremos muito, muito crianças.

---

* Essa postagem é dedicada, com todo o afeto do mundo, a Kárdia Lacerda, Karla Rebouças, Álvaro Studart, Eliseu Becco, Ládia Chaves, Marcelo Girão, Daniel Holanda, José Nilton Oliveira, João Odilo, Eduardo Furlani, Marcelo Machado, Pedro Uchoa, Lia Carvalho, Fernando Veras, Aline Carvalho, Vitória Régia, Delano Benevides, Ciro Pompeu, Fernando Meton, Fábio Távora, Ana Cecília Muniz, João Leitão, William Segundo, Cinira Leandro, André Pinheiro, Kelma Leite, Roberto Cardoso, Gustavo Macedo, Erli Viana, Iane Pontes, Duílio Rocha, Flávio Bonfim, Rodrigo Rodrigues, Kamilla Xavier, Luana Bravo, Anderson Eufrásio, Alexandre Bastos, Dulce Bizarria, Breno Falcão, Jefferson Lopes, Eduardo Barros, André Pinheiro, Gustavo Colares, Gustavo Abreu, Luiz Alberto, Daniel Moura, Daniela Bezerra, Ticiana Macedo, Mary Anne Sampaio, Helder Bezerra, Dennison Pinheiro, Murilo Massari, César Vieira, Sávio Fragoso, Wallace, Ivo Menezes, Arquimedes Santana, Ingrid Nair, Dario Castro, José Wilker, Andrea Carvalho, Samara Nunes de Liz, Adriano Sobreira, Jeanne Vidal, Leonardo Xavier, Euler Antunes, Rafael Marinho, Lígia Rêgo, Felipe Salvatierra, Tobias Souza e outros de cujos nomes não pude me lembrar agora - e a quem peço perdão pela omissão -, mas que fizeram e fazem parte da minha infância, desta minha infância que dura até hoje.


1 comentário(s):

  1. Muito bom ler suas palavras Raul! Sinta-se abraçado e correspondido!

    ResponderExcluir