terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre o tempo - parte 1

Há alguns assuntos bem complicados na reflexão filosófica. Um deles é o tempo.

A dificuldade começa logo em definir o que é o tempo. E embora essa seja uma questão um tanto chata, que provoca aquelas discussões bem abstratas, trata-se de uma questão necessária, simplesmente porque precisamos saber sobre o que estamos falando. E pretendo demonstrar, ao final, como a compreensão acerca do tempo pode se tornar muito relevante no modo como se vê e como se vive a vida.

O que é o tempo, afinal? (Prepare-se que a viagem vai bem longe).

O bispo Agostinho de Hipona disse que o tempo é daquelas coisas que, se ninguém perguntar, a gente sabe o que é; mas se alguém perguntar e queremos explicar, aí já não sabemos mais. E é isso mesmo. Tenho a nítida impressão de que não é possível formular uma definição satisfatória acerca do tempo, mesmo porque não é possível refletir sobre o tempo sem estar submetido a ele. Nossas lembranças do passado, nossas expectativas do futuro, nossas percepções do presente, isso é o que somos. E tudo o que há, para nós, está dentro dessas categorias: passado, presente, futuro. Nada há, para nós, fora do tempo. 

Como vamos saber o que é o tempo, se nem temos como imaginar como seria viver estando fora do tempo? Como vamos conhecer o tempo se ele é condição e pressuposto para o próprio conhecimento? Além disso, toda definição é uma delimitação, e o tempo sempre escapa. Não dá para observá-lo enquanto objeto, porque ele nunca está ali. Está sempre em movimento, e nosso espírito nele (ou ele em nosso espírito, sabe-se lá).

Mas não custar tentar pelo menos traçar um caminho. Depois vemos aonde chegamos e se podemos continuar – ou voltar atrás.

Passado, presente e futuro, numa sucessão de acontecimentos: isso é o que nos parece ser o tempo.

Mas existe mesmo um passado que não seja apenas uma lembrança? Tente lembrar: o que você estava fazendo duas horas atrás? O que você fez ontem o dia todo? Como foi a última viagem que você fez? Como foi o seu primeiro beijo? Essas recordações que surgem na sua mente não estão no passado, estão no presente, estão aí na sua cabeça, agora mesmo. O passado não existe mais. Passou. E quando o passado existiu, não era, naquele momento, passado: era o presente. Na verdade o passado nunca existiu, foi apenas um presente que passou e se tornou uma lembrança – ainda presente.

Pense se digo algum absurdo.

E o futuro? O que é o futuro? Existe mesmo um futuro que não seja apenas uma expectativa? Pense aí: o que você vai fazer daqui a duas horas? O que você vai fazer amanhã pela manhã? Como vai ser a sua próxima viagem? Como vai ser o seu próximo beijo? Ninguém sabe, porque o futuro ainda não chegou. Claro que o que você planejou para daqui a duas horas muito provavelmente vai se concretizar. Mas vai mesmo? É plenamente possível que não. Não é apenas uma expectativa? E se o telefone tocar com alguma demanda urgente? E se faltar energia? E se o carro quebrar? A propósito, você vai mesmo dar um próximo beijo? Vai mesmo viajar? Essas expectativas que surgem na sua mente não estão no futuro, estão no presente, estão aí na sua cabeça, agora mesmo. O futuro não existe ainda. E quando o futuro chegar não será, naquele momento, o futuro: será o presente. Na verdade, o futuro nunca existirá, será apenas um presente que chegou.

Pergunto de novo: digo algum absurdo?

Depois de escrever um longo capítulo sobre o tempo, André Comte-Sponville diz algo que eu mesmo gostaria de dizer depois de escrever esta postagem:

Como poderíamos sair do presente, se ele é tudo? Por que querer sair, se o próprio espírito pertence a ele? Veja este capítulo que acaba: ele ficou quase todo para trás, com um passado que já se apaga. Mas você não o leu e nunca o lerá a não ser no presente, como eu o escrevi no presente. 

O mesmo vale para a sua vida, e isso é muito mais importante. Ela não está escondida no futuro, como um destino ou uma fera ameaçadores. Nem oculta no céu, como um paraíso ou uma promessa. Nem encerrada no seu passado, leitor, como num porão ou numa prisão. Ela está aqui e agora: ela é o que você vive e faz. No cerne do ser. No cerne do presente. No cerne de tudo - no grande vento do real e do viver. Nada está escrito. Nada está prometido.” (André Comte-SponvilleApresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes, p. 122-123)

Eu sei que essa reflexão acaba sendo bem piegas, alguém já deve ter lido alguma coisa parecida num desses livros porcarias de auto-ajuda ou nesses sites de mensagens na internet. Mas fazer o quê? É isso mesmo, e a vida é mesmo cheia de clichês. Às vezes um clichê que antes não significava coisa alguma se torna uma realidade substantiva, depende do presente de cada um.

O maior obstáculo à vida é a espera”, disse Sêneca. E muitas vezes as recordações do passado aprisionam mesmo nossa mente e nos matam aos poucos. Mas não há passado nem futuro. Demora-se muito para perceber que isso é verdade, mas quando se percebe alguma coisa muda no modo de encarar a vida.

Então é isso? Aproveitar o momento sem se preocupar com o futuro? Simplesmente esquecer o que passou? Não é isso, exatamente. Viver no presente, que é inevitável, é bem diferente de viver no instante, que pode ser irresponsável. Mas trataremos dessas outras perguntas na próxima postagem.


9 comentário(s):

  1. Adorei o post. Gostei da diferença entre o presente e o instante. :)

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  2. E que conselho você daria a quem ainda pensa muito no passado e teme o futuro?
    Não vou me identificar porque o pedido me faz sentir uma certa vergonha, embora eu saiba que assim como eu muitos pensam no passado( como foi bom, se poderia ter sido melhor, diferente), e muitos também temem o futuro( solidão, desamparo, fracasso, doenças). Alguns podem me achar pessimista, mas é fato que eu eventualmente sofro com esses questionamentos.
    Você pode me ajudar?

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  3. Se o passado é o presente em forma de lembrança-apenas recordações, então deveríamos ter interesse pela História?
    Você consegue entender o meu questionamento?
    Abc.
    Karla.

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  4. Uma dica que tem a ver com o tema:"Meia-noite em Paris", o filme.
    Karla.

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  5. Karlota, entendo seu questionamento. A história, tanto das civilizações quanto das pessoas, é parte do presente delas. Entender e estudar a história ajuda bastante a entender o presente.

    Não tem como apagar o passado-recordação-presente, e não é adequado que se queira isto. O passado-recordação-presente pode ensinar coisas importantes.

    Acho que é isso.

    (Obrigado pela dica, ainda não vi "Meia-noite em Paris". Vou ver.)

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  6. Obrigado, Julie. Obrigado pela companhia.

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  7. Bem... caro(a) anônimo,

    primeiro, não há nenhum problema em colocar comentários anônimos, fique à vontade. A única lei aqui neste Jardim é a lei do prazer (no sentido de satisfação, alegria, no sentido de sentir-se bem, sem causar mal a ninguém).

    Quanto ao conselho, olha, não tenho autoridade nem posso assumir a responsabilidade de dar um conselho assim, especialmente sobre coisas do passado. Eu sei lá de que passado você fala. =)

    Escrevi uma vez uma postagem intitulada "O que passou passou", dê uma olhada:

    http://www.ojardim.net/2010/02/o-que-passou-passou.html

    Trata disso. Em resumo, acho que apenas você tem que lembrar que você é um homem ou uma mulher, e para ser um homem ou uma mulher inteiro ou inteira tem que passar pelas experiências de errar, de se arrepender, de lamentar. Mas lembrar também, como disse nesta postagem, que o passado não existe mais. Não pode ser mudado. O presente pode.

    Quanto ao futuro, bem, aí a questão é mais complicada. O futuro pode se tornar mesmo algo assustador. Na próxima postagem pretendo tratar disso com mais detalhes. Depois você me diz o que achou.

    Um abraço e obrigado por estar aqui.

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  8. Obrigada por ter me respondido.

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  9. Raul, da uma atualizada.vai! Estou sedenta por uma boa leitura.

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