O passado passou e agora não é mais que uma lembrança. O futuro ainda não chegou e, na verdade, nunca vai chegar (pois quando chegar não será mais futuro, mas presente).
Não se pode viver a não ser no presente.
Viver no passado ou no futuro, portanto, é mais que um engano: é uma impossibilidade. Quem pode amar no passado ou no futuro? Quem pode se divertir no passado ou no futuro? Quem pode trabalhar no passado ou no futuro? Quem pode agir no passado ou no futuro?
Mas viver sempre no presente não significa viver sem se importar com o passado ou com o futuro. Isso seria viver no instante, segundo Sponville.
“Viver no presente? Tem de ser, já que só isso nos é dado. Viver no instante? De jeito nenhum! Seria renunciar à memória, à imaginação, à vontade - ao espírito e a si. Como pensar sem nos lembrar das nossas idéias? Amar, sem nos lembrar de quem amamos? Agir, sem nos lembrar dos nossos desejos, dos nossos projetos, dos nossos sonhos? Se você estuda ou paga um plano de aposentadoria, é para preparar seu futuro, e você está certo. Mas é no presente que você estuda ou paga, não no futuro! Se você cumpre suas promessas, é porque, antes de mais nada, você se lembra delas, e tem de lembrar. Mas é no presente que você as cumpre, não no passado!
Viver no presente não é amputar sua memória ou sua vontade, já que elas fazem parte dele. Não é viver no instante, já que é durar, já que é persistir, já que é crescer ou envelhecer.” (André Comte-Sponville, Apresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes, p. 120)
O instante acaba, ali mesmo. O presente continua. Por isso não se pode (ou não se deve) simplesmente não se importar com o futuro, porque o futuro nada mais é que a continuação do presente.
Aliás, o futuro é o grande anseio de nosso coração, não há como escapar disso. É no futuro que estão nossos sonhos, nossos projetos, nossa esperança. Por outro lado, o futuro é sempre nebuloso, porque nunca sabemos o que pode nos acontecer. O futuro sempre muda suas feições na medida em que a vida segue. Mas que vida é essa que se vive à espera de um futuro que nunca chega, que se vive na expectativa que nunca se concretiza, que se vive num futuro que nunca se torna presente?
"Nós somos prisioneiros do futuro e de nossos sonhos: de tanto esperar amanhãs que cantem, perdemos o único caminho real, que é o de hoje. No entanto é preciso viver e lutar: partir para o assalto do céu, mesmo que esse céu não exista.” (André Comte-Sponville em O Amor a solidão, citado na contracapa de Apresentação da filosofia, Ed. Martins Fontes)
Não há outra saída, é preciso viver e lutar. Hoje mesmo, não amanhã. Talvez haja algo maravilhoso a ser conquistado, "tomado de assalto" mesmo; talvez nem haja. Mas no final das contas isso é o que menos importa.


Grande mestre,
ResponderExcluirGaston Bachelard escrevia sobre o instante. No livro "A intuição do instante", o autor fala que o tempo nada mais é que uma eterna descontinuidade. Não há relação nenhuma com os eventos: somente instante.
Para ele, a duração é um artifício não-natural, assim como o passado e o futuro, isto é, sem realidade objetiva. A duração é aquilo que tem motivos para permanecer. A única coisa "natural" que faz parte da duração é o nada.
Acho que faltam mais reflexões profundas sobre o tempo, especialmente, no direito.
Abraço,
Ramon
Meu estimado Ramon,
ResponderExcluirvocê acha que o que Bacherlad chama de "instante" é o mesmo que Sponville chama de "presente"? Ou é o mesmo que Sponville chama de "instante" mesmo?
Obrigado pela companhia.
Um abraço.
Não sei é o mesmo, mas é semelhante :)
ResponderExcluirRamon